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2010
terapia com a internet
A internet usada como tentativa de conter e lidar com os conflitos e angústias do ser humano
A Internet é instrumento necessário para a implantação e continuidade da sociedade globalizada. A globalização é uma proposta sócio-política-econômica para dar continuidade às organizações das diferentes sociedades, uma vez que os antigos modelos esgotaram-se. Traz a idéia de podermos pertencer a uma comunidade global, com um aparente congraçamento entre as diferentes sociedades, etnias, culturas, religiões e economias, tentando esvaecer as diferenças. Para que isso possa ocorrer, é imperativo haver uma forma de comunicação eficaz e instantânea de comunicação entre o mundo todo. No Pentágono americano havia uma forma de comunicação entre seus membros através de uma rede de computadores interligados. Esta rede foi ampliada, nascendo assim a Internet, rede mundial de comunicação eletrônica.
A Internet possibilita comunicação rápida e fácil, o intercâmbio entre diferentes culturas e acesso quase ilimitado à informações. Neste sentido, é formada por máquinas – computadores – que se comunicam e um vasto banco de dados. Uma tecnologia que também aumenta a possibilidade de nos aproximar de pessoas que, de outra forma, provavelmente, seriam inatingíveis, podendo ampliar nosso mundo relacional real; permite um desenvolvimento cada vez mais aprimorado das pesquisas científicas, trazendo conhecimento e aplicações inestimáveis para as diferentes áreas de saúde, além de estimular recursos pessoais antes não explorados. Neste encontro, vou tentar aprofundar uma maneira especial de utilizar este arranjo tecnológico: usá-lo como se fosse um mundo relacional entre pessoas, vivido como se ocorresse na realidade real.
Todos nós, em maior ou menor grau, em diferentes momentos de vida, já imaginamos habitar um lugar onde não houvesse exigências e responsabilidades, o amor fosse incondicional, todas as pessoas seriam ilimitadas, bonitas, sem defeitos e perfeitas e, principalmente, todos os desejos seriam prontamente atendidos e satisfeitos. Este lugar idealizado e almejado denomina-se paraíso. Muitas doutrinas sociais, econômicas e religiosas já foram formuladas com o objetivo de atingi-lo, seja neste mundo ou em uma existência futura. Segundo esta linha de raciocínio, a vida terrena, a vida humana conforme a conhecemos e vivemos quotidianamente, seria o inferno. O que será que acontece para a vida ser assim sentida?
O desenvolvimento psíquico ocorre através da elaboração de experiências emocionais desde o nosso nascimento. Essas experiências acontecem primeiramente no contato interpessoal mãe – bebê, estendendo-se para o meio familiar e o de grupo. O ser humano busca o crescimento e desenvolvimento para se sentir autônomo, impulsionado por seus desejos, seu próprio desenvolvimento e necessidades biológicas e por exigências do mundo externo. Na busca do amadurecimento emocional, o homem descobre e trava uma luta sem trégua para atingir seu crescimento e durante este processo almeja repousar um pouco.
Durante o seu desenvolvimento, o ser humano tem de lidar com angústias cruciais: a angústia da sua finitude, a morte; a angústia por saber que precisa de outras pessoas, para satisfazer suas necessidades, que são independentes e autônomas dela, isto é a discriminação eu – outro, e a angústia de que não será satisfeito de acordo com seu desejo, ou seja a frustração. A cada momento de sua vida, a pessoa vive e reatualiza situações de conflitos onde estão presentes essas angústias. Para lidar com elas, o ser humano pode utilizar-se de sua mente que, operando sobre essas experiências, fornecerá um sentido afetivo à elas e à sua vida, através da simbolização. É desta maneira que o ser humano pode pensar a respeito dessas experiências e refletir sobre sobre si mesmo, o que o diferencia dentro da escala animal. Uma outra maneira, aparentemente mais fácil, de lidar com os sentimentos dolorosos inerentes ao existir humano é imaginar encontrar o paraíso, onde o pensar e refletir são desnecessários, porque só existe o prazer.
Sabemos que é próprio da pessoa tentar controlar aquilo que é intrinsecamente característico do ser humano, tentando livrar-se da percepção e consciência do que acontece consigo, uma vez que imagina que é devido à elas que sente dor mental. A modernidade nos oferece a Internet, entre outros, como instrumento possível de fuga da dor de existir e assim encontrar o repouso desejado durante a vivência das situações de conflito, isto é viver no paraíso. Ou seja, a Internet pode ser vista como o Éden moderno. Mas, como usar a Internet de tal maneira a ocupar o espaço de resolução dos conflitos emocionais?
Atualmente, os jogos eletrônicos e a realidade virtual freqüentemente substituem os espaços lúdicos interpessoais que possibilitam a experiência e a elaboração emocionais. Servem como substitutos da relação pessoa a pessoa, necessária para o desenvolvimento e enriquecimento psíquicos, tornando a vida humana parecer um jogo com um objetivo a ser atingido, onde se acerta ou erra, ganha ou perde, etc. As experiências humanas passam a ser dicotomizadas: certa ou errada, boa ou má, por exemplo, ficando, assim, mais fáceis de serem controladas. O contato humano se dá entre um ser humano e uma máquina tirando a riqueza emocional da relação interpessoal, mas as dores do viver e angústias são evitadas.
No mundo virtual tudo pode: não existem limites, finitude. Uma pessoa pode se apresentar a outra como gostaria de ser e de ser vista, ou se mostrar como a pessoa com quem se comunica quer que ela seja. São vistas e se mostram numa tela de computador, através da visão de palavras. A realidade virtual, assim, passa a ser a extensão do eu, aonde estão projetados todos os desejos e busca de satisfação e com a qual nos relacionamos e nos identificamos, podendo muitas vezes substituir a própria realidade. A discriminação eu – outro fica, portanto, debilitada. A vida passa a ser vivida como um jogo de videogame, ou num mundo de realidade virtual, onde o outro não existe, a não ser como extensão do eu, o outro que eu crio. Com a perda do sentido de separação eu – outro, as vivências de ausência e de falta podem ser dribladas. A realidade passa a ser substituída pela realidade virtual, a vida sendo vivida como uma ficção. No mundo virtual ficcional, a realidade vai se tornando cada vez mais ambígua, para poder conter dentro de si todas as diferenças como se fossem iguais. Ao tentar igualar as diferenças, o mundo nos resulta não problemático. A realidade virtual passa a ocupar o espaço da reflexão crítica, que antes era feita no relacionamento interpessoal. Evitando-se os sentimentos de separação, ausência e falta, o desenvolvimento psicoemocional do indivíduo fica obstruído.
Com o desaparecimento da discriminação eu – outro, ausência do sentimento de falta e a tentativa de driblar a vivência de limite, a mente funciona da mesma maneira que um músculo, como disse Bion, um psicanalista inglês contemporâneo, isto é, a mente passa a reagir aos intensos estímulos pronta e rapidamente, sem possibilidade de repercussão desses estímulos na esfera emocional. A mente perde a função de operar sobre as experiências emocionais e a vida psíquica passa a ser igualada ao funcionamento cerebral. Assim, a química presente no funcionamento cerebral comandaria o mundo emocional, e não mais a linguagem. O relacionamento interpessoal e a linguagem sendo ignoradas como estruturadoras do mundo psíquico reduzem a capacidade simbólica do ser humano, o que se contrapõe às concepções psicanalíticas de que o pensar só é possível na ausência do outro. Para isso, é necessário que o ser humano tolere ser diferente de todas as outras pessoas, reconheça suas características humanas e necessidades emocionais e possa se adequar à realidade para obter experiências prazerosas.
A Internet usada como lugar de resolução dos conflitos do viver serve para superficializar e banalizar o ser humano. Imaginando poder viver no paraíso da realidade virtual ficcional, a pessoa se empobrece enquanto ser humano, se desumaniza para não enfrentar a verdadeira experiência humana. Coloca-se num vazio, que se perpetua e se auto alimenta, trazendo sentimentos de isolamento e solidão. Do meu ponto de vista, apesar da dor psíquica, o interesse em viver deveria estar ligado ao respeito pelas qualidades constituintes do que é estar vivo, diferentemente de uma máquina ou um objeto inanimado, enriquecendo as pessoas, a sociedade e a cultura.
Fonte: Suely Gevertz. Psicóloga e psicanalista. Professora nos cursos “Atendimento em Orientação Familiar e Processos Psicoterapêuticos”, “O Desenvolvimento do Raciocínio Clínico na Prática Psicoterapêutica” e “A psicanálise na sociedade contemporânea”, do Instituto Sedes Sapientiae. Membro efetivo do Departamento “Formação em Psicanálise”, do Instituto Sedes Sapientiae. Coordenadora editorial da seção Psicanálise da revista “Viver Psicologia”, da Editora Segmento. Psicanalista pelo Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de psicanálise de São Paulo.





